Como nós designers sabemos, na Roma Antiga as inscrições em monumentos e prédios públicos eram feitas com as Capitalis Monumentalis, que na realidade, não foram criação de um, nem dois, nem cem “designers” da época, mas se originaram de séculos de evolução da escrita. O exemplo mais notável deste tipo de letra, como também sabemos, são as inscrições da Coluna de Trajano, em Roma. Pois bem, o que alguns designers talvez ignorem, é que essas letras não eram bidimensionais, tais como na famosa fonte Trajan, de Carol Twombly. As letras eram cuidadosamente pintadas por calígrafos com pincéis chatos, e então eram esculpidas, ou melhor, cinzeladas na pedra com cortes em forma de “V”. Esse tipo de letra cinzelada, sobreviveu à queda do Império Romano, e continuou a ser utilizada em monumentos, placas, memoriais e lápides pelo mundo a fora.
Inscrição na Coluna de Trajano
Na Inglaterra, Alemanha, Bélgica, França e EUA essas letras ainda são utilizadas e existem designers que vivem exclusivamente desse tipo de encomenda. Existem até mesmo associações de ofício e oficinas que se dedicam a ensinar essa forma de arte. O nome em inglês para isto é letter carving. Não existe termo em português que defina isso então manteremos o termo original mesmo.
O assunto é bastante extenso e neste post irei apenas mostrar um esboço do cenário atual nos EUA e a Inglaterra.
Os estadunidenses são bastante conservadores em relação à estética e a criação. Nos Estados Unidos, o letter carving é utilizado principalmente em prédios públicos e lápides. Por se tratar de um ofício intimamente ligado à caligrafia, os letter carvers americanos acreditam que antes de se exercer este ofício, deve-se ser um exímio calígrafo. No vídeo abaixo há um depoimento do mais proeminente letter carver (ou stone carver) dos EUA, Nicholas Benson. Ele é descendente de uma tradicional família americana há mais de três séculos no ofício e é dono da The John Stevens Shop, fundada em 1705.
A verdadeira revolução no cenário atual do letter carving vem mesmo da Inglaterra. A figura responsável por esta arte sobreviver e se multiplicar no século XX, foi o designer Eric Gill (aquele mesmo, criador da famosa fonte Gill Sans). Ele foi o mestre de um dos mais proeminentes letter carvers ingleses, David Kindersley. Ele, assim como Gill, era especialista nas variantes das Capitalis Monumentalis. No entanto, encomeçou a introduzir uma abordagem mais decorativa as inscrições na pedra. Hoje, Lida Lopes Cardozo, letter carver e viúva de Kindersley, administra a oficina que leva seu nome, a Cardozo Kindersley Workshop em Cambridge. A oficina têm diversos aprendizes, ministra cursos e faz trabalhos sob encomenda para toda a Inglaterra.
David Kindersley, placa comemorativa à Henry Morris – 1989 dC
Outro importante fundador deste cenário é mais um discípulo de Eric Gill, Ralph Beyer. Ele foi um dos primeiros a usar letras com um estilo muito próprio, usando também assimetria e formas de composição mais livres.
Ralph Beyer, “I and the Father are One”, uma das oito “Placas do Mundo” na Converty Cathedral – 1960-61 dC
Tom Perkins foi outro importante disseminador desta arte. Ele escreveu o fantástico livro The Art of Letter Carving in Stone, onde além de fornecer um sólido embasamento histórico e teórico sobre design de letras, fornece explicações detalhadas sobre a técnica, materiais e ferramentas. Ele e sua esposa, a calígrafa Gaynor Goffe, também se dedicam a ministrar cursos, além de realizar trabalhos diversos, desde monumentos até lápides e memoriais.
Tom Perkins, “And the Word Was Made Stone”
O site Memorials by Artists reune alguns dos mais proeminentes letter carvers da Europa e Grã-Bretanha. Abaixo separei uns poucos exemplos da produção deles. Visitando o site, você pode conferir o trabalho de todos os artistas da associação.
Embora “quebrar pedra” possa ser uma maneira tida como antiquada para produzir placas, memoriais, lápides e sinalização, é uma das mais antigas formas de expressão humana. Como diz o letter carver John Benson “a impressão não pode em tudo representar a mão viva.”
Seguindo a mesma trilha do 












Letter carving: O caminho das pedras
Como sugere o título, esse é um passo-a-passo do letter carving, técnica o qual descrevi um breve cenário no post anterior.
Sou também um iniciante, mas dado a tremenda escasses de material sobre este assunto em português, espero que possa ser útil à alguém. Não vou nem de longe esgotar aqui o assunto, mas para quem estiver perdido, pode servir como ponto de partida.
1. Conhecimento
Existe muitos livros, principalmente em inglês, sobre letter carving. Entretanto, não é nada fácil achá-los no Brasil. Comprei pela Amazon.com o livro “The Art of Letter Carving in Stone” de Tom Perkins – 192p The Crowood Press, 2007. Escrito pelo mais renomado letter carver da Grã-Bretanha, o livro traz um breve histórico sobre o letter carving contemporâneo, teoria da construção de letras, descrição ferramentas e materiais necessários. É uma obra extremamente didática, com muitas fotos e ilustrações, e ao mesmo tempo profunda nos aspectos teóricos. Não teria chegado em lugar algum sem este livro.
2. Ferramentas
O único lugar no mundo que ainda se fabrica e vende equipamento para letter carving é a Inglaterra. Consegui comprar em duas lojas que vendem para o exterior: a Avery Knight & Bowlers e a Tiranti. Para a maioria dos propósitos do letter carving, as ferramentas se resumem a quatro itens básicos (o único item que encontraremos no Brasil são os óculos de proteção). Abaixo segue a descrição deles com o preço em Libras (sem frete):
a. Cinzéis com ponta de carbeto de tungstênio (TCT lettering chisels). Estes cinzéis tem a ponta construida com carbeto de tungstênio, que é um material cerâmico ultraresistente = £20,00 cada.
b. Martelo de escultura de 1½lb (1½lb dummy mallet). É um martelo de cabeça arredondada de ferro, aço ou cobre e cabo geralmente de madeira = £11,00
c. Amolador de cinzéis de diamante (Diamond sharp strip) = £27,00
d. Óculos de proteção = 5 pilas
Agora, segue um vídeo apresentado por mim, onde demonstro a cinzelação de uma letra “M” em uma pequena placa de ardósia. Espero que minha falta de qualidade como apresentador não apague a instrução da técnica