O Photoshop nas antigas parte II – Maurice Quentin de La Tour

Seguindo a mesma trilha do primeiro post, continuo com meu desencargo de consciência em relação ao uso de ferramentas de edição de imagem. Agora vou falar um pouquinho de um dos primeiros artistas a se dedicar quase exclusivamente à técnica do pastel. As boas e velhas “alterações na arte” não são exclusividade dos nossos tempos e outrora, assim como agora, se o artista não agrada, a cabeça pode rolar (na França de Luis XV, essa expressão causava ainda mais suor frio por razões óbvias). Assim como hoje, os artistas das épocas idas também tinham que se virar para que as famigeradas “alterações” não significassem refazer todo trabalho.
Quantas vezes não fiz meus próprios Frankensteins, recortando e descartando um pedaço “ruim” de um desenho no Corel Painter ou Photoshop e colando aquele que ficou “o bicho” fazendo parecer que fora feito numa sentada só. Quanta ingenuidade na minha vida pré-desktop publishing, que quando percebia que a cara da modelo ou super-heroína que desenhava tinha ficado irremediavelmente torta, amassava tudo, jogava fora e recomeçava do zero: “Droga! Por que não sou como aqueles artistas geniais de antigamente, que eram bons o bastante pra acertar de primeira!”
As ferramentas digitais de edição de imagem me pouparam desse drama, mas abriram caminho para continuar questionando minha habilidade: “Droga! Eu tenho ferramentas que gênios antes de mim nem sonharam que um dia existiriam, e nem assim consigo fazer um trabalho decente ‘de prima’!”
Obviamente, os gênios continuam sendo gênios e eu continuo sendo um tosco. A única semelhança que posso ter com eles são a falta de grana e reconhecimento.
Bom, começaremos falando um pouco do nosso herói e os pastéis.

De La Tour e os pastéis

maurice_quentin_de_la_tour_-_self-portrait_-_wga12361Maurice Quentin de La Tour – auto-retrato

O pastel, ou pastel seco, é uma técnica em que o medium, ou meio, é a própria ferramenta de trabalho. Explicando: ao invés de mergulharmos um pincel em alguma tinta e com este colocarmos a cor no suporte (tela, papel, madeira e afins), utilizamos um bastão de pigmentos aglutinados para pintar e desenhar. “Ah, sim! Como meu sobrinho com a caixa de giz de cera dele!”. Isso, exatamente o rebento supracitado. A diferença é que os pasteis secos, que são os mais utilizados, possuem muito menos aglutinante que um giz de cera, depositando praticamente só uma camada de pó, que é muito brilhante por não ter interferência de um veículo como óleo, cera ou resina. “Entendi! Como giz de lousa?”. Isso mesmo (nunca duvide da capacidade das pessoas de comparar suas técnicas artísticas ao universo escolar).

Maurice Quentin de La Tour nasceu na comuna francesa de Saint-Quentin. Aos quinze anos foi a Paris estudar com o pintor flamengo Jean Jacques Spoede. Depois de passagens por Reime e pela Inglaterra, retorna a Paris e começa a trabalhar quase exclusivamente com pastéis.
rousseauMaurice Quentin de La Tour – Retrato de Rousseau

Começa então a ficar famoso por seus retratos, e fez algumas das imagens que mais conhecemos de Voltaire, Rousseau e Luis XV. Foi inclusive membro da corte do Rei da França, e artista oficial da mesma. Ali ele começa um dos seus trabalhos mais intrincados, que vou utilizar aqui para mostrar alguns dos “migués” que os gênios da arte utilizavam (o que me faz sentir um pouco menos culpado pelos meus próprios migués :) )

Retrato da Madame de Pompadour

test_loupe_1200Maurice Quentin de La Tour – Retrato de Madame de Pompadour

Jeanne-Antoinette Poisson ou Madame de Pompadour foi a maîtresse-en-titre, i.e. cortesã-chefe, da corte de Luis XV entre 1721 a 1764. Esse era um título semi-oficial, que era subentendido por todos pelo fato da cortesã ter um apartamento próprio dentro do palácio e pela posição do mesmo em relação aos aposentos reais. Nos bastidores, ela foi a mulher mais influente da França na época. Como tal, tinha contato com intelectuais e artistas mais destacados. Segundo Chabod Christine em artigo no site oficial do Museu do Louvre, De La Tour e Madame de Pompadour já se conheciam e o retrato iniciou um ano antes de sua encomenda formal, em 1749 (outras fontes estabelecem a data de 1751). Em um trecho, o artigo diz que “apesar desta ligação, o projeto encontrou problemas para fazer curso. Delatour tentou com dificuldade, recorrendo a desvios e alternando entre desculpas legítimas e má-fé, para cumprir as exigências caprichosas da marquesa.”

Cliente temperamental, soluções modulares

No mesmo site do Museu do Louvre, há um tour virtual pela obra, onde pude aferir as informações que permitiram identificar as ferramentas “analógicas” de edição utilizadas por De La Tour.
Inicialmente, nota-se que este retrato é excepcionalmente grande para uma pintura em pastel, medindo 1,77m de altura por 1,30m de largura. Este trabalho exigiu um longo periodo de preparação e seu impecável acabamento esconde uma intrincada colcha de retalhos.

Lasso tool das antigas

Existem ao menos três esboços da cabeça da Madame de Pompadour, que têm a mesma medida do rosto pintado no retrato completo. A cabeça foi também a única parte pintada ao vivo. O trabalho todo é composto por oito pedaços de papel. Não sou um especialista na obra de De La Tour, portanto, não posso afirmar com precisão o porquê do trabalho estar tão subdividido. Mas em posse desta informação, posso supor pela experiência que tenho, que essa modularidade facilitava o manuseio durante a pintura, e permitia ao artista conter eventuais “acidentes” de percurso, restringindo-os a uma pequena parte do todo (já que além de tudo, ele não possuia nosso mantra salvador, o Ctrl+z). Finalmente, a linha pontilhada em vermelho na figura abaixo mostra a posição dos pedaços do “quebra-cabeças” já devidamente recortados com sua “lasso tool”.
pompadour_pedacosSubdivisão dos pedaços de papel que compõe o retrato de Madame de Pompadour

Agora vamos ver como ele esconde as “costuras”.

Healing Brush tool

O bom e velho “band-aidzinho” da barra de ferramentas, que existe no Photoshop CS5 na versão “spot” (quando você determina qual área ele copia para disfarçar uma emenda) ou o tradicional Healing Brush, o qual o misterioso algorítimo do programa magicamente faz a emenda (como sabemos, às vezes a mágica não dá certo). De La Tour conseguiu manter a maior parte das emendas em áreas que continham texturas e detalhes, o que ajudou a disfarçá-las de tal maneira que são quase imperceptíveis.
A região de um retrato que mais é notada, obviamente, é o rosto da personagem em questão. Nessa região, os recortes ficaram justamente nas áreas azuis do fundo, e tendo em vista a concentração que todos teriam no rosto da Madame de Pompadour, é provavelmente onde as emendas mais seriam percebidas. O artista mais uma vez usa uma solução simples e genial. Com um pastel suavemente mais claro, ele faz riscos perpendiculares ao recorte, como se estes riscos fosse a linha da costura. Ele não parecia querer disfarçar seu patchwork, mas sim destacá-lo ainda mais. Na realidade, essas linhas criam uma continuidade entre as duas portas de papel, além de guiar os olhares para o rosto, como se apontassem pra ele. A cor mais clara é um velho recurso da pintura, onde se cria artificialmente o contraste ao observar um objeto escuro em um fundo mais claro. Invariavelmente, a parte do fundo que “toca” o lado sombreado do rosto parece mais clara. Exagerando esse contraste, se cria um efeito de “áurea” no rosto da retratada. Além disso, as bordas bastante irregulares dos pedaços de papel ajudam a disfarçar o recorte.
pompadour_cabeca“Costura” feita com riscos em azul claro, no fundo, em volta da cabeça

Bom, é isso. A base desse artigo é puramente empírica, não tenho nenhuma pretensão de rigor histórico ou técnico, e já ficarei satisfeito se ajudar a aumentar um pouco o interesse por este grande artista que não é tão conhecido.
Pretendo fazer outros artigos sobre artistas o qual normalmente não ouvimos muito a respeito, novamente, mais para tentar aprender com a pesquisa e despertar curiosidade, do que para analisá-los com rigor acadêmico (o que definitivamente estaria fora da minha alçada :P )

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