O Photoshop nas antigas parte I – Johannes Vermeer

Em uma época sem Ctrl+c/Ctrl+v, sem eyedropper, sem “filtros artísticos” ou ferramentas de seleção, os artistas usavam recursos além do olhar para entender seu assunto de estudo, ou faziam algumas “lambanças” para juntar as melhores partes do que faziam em uma só obra.
Não vou falar aqui de montagens fotográficas (que provavelmente surgiram junto com o primeiro daguerrótipo), mas sim do “jeitinho” que os artistas já usavam muito antes da era da fotografia.
Vou falar nos próximos posts de duas gambiarras de dois gigantes da arte, ambos meus ídolos.  Nesta primeira parte, falarei do Mestre de Delft Johannes Vermeer

Vermeer e a Camera obscura

Quando faço meus desenhos e ilustrações usando uma tablet, sempre me pergunto qual o limite  entre a comodidade da ferramenta e a malandragem para ter menos trabalho.
Não consigo, por exemplo, desenhar “por cima” de uma foto, como alguns fazem. No máximo, quando faço o retrato de uma pessoa, por exemplo, marco por cima da foto, as distâncias entre os olhos, dos olhos até o nariz, tamanho da boca, etc., para conservar as proporções da pessoa. Poderia fazer isso desenhando um olho, depois usando esse olho como medida de referência para tudo, medindo com um lápis distância por distância (o que teria o mesmo efeito, mas demoraria muito mais). Mas, mesmo que desenhasse por cima da foto, isso me desqualificaria? O desenho deixaria de ser “mágica” e se tornaria apenas um “truque”?
Sempre achei q um artista de verdade jamais devia se utilizar de tal recurso. No entanto, no século XVII na cidade de Delft, nos Países Baixos, um artista já conseguia ter um “olhar fotográfico” sobre seus temas muito antes da invenção de Louis Daguerre em 1837. Suspeita-se que ele utilizava a camera obscura (do latim, assim mesmo, sem acento).
Câmera obscuraCamera obscura sendo utilizada por um artista do século XVIII

No site Essential Vermeer, um dos mais extensos e detalhados sobre vida, obra e técnicas do artista neerlandês, há um artigo sobre Vermeer e a camera obscura. No artigo afirma-se que não há nenhum indício documental sobre o uso de tal técnica pelo artista (assim como não existem documentos que comprovem muitas coisas sobre ele). No entanto, o mesmo artigo afirma que há fortes indícios do uso desse artifício em suas pinturas.
Entre as evidências mais fortes, segundo o site, estão a discrepância da escala das figuras no quadro Oficial e Moça Sorridente.

officerOficial e Moça Sorridente – Johannes Vermeer

Embora as duas figuras estejam muito próximas uma da outra, o oficial em primeiro plano está numa escala muito maior do que a moça. A princípio a imagem não nos causa estranheza, pois estamos habituados ao assunto em primeiro plano em uma fotografia aparecer em maior escala por estar mais próximo da objetiva da câmera. No entanto, a maioria dos artistas da época tendiam a compensar tal discrepância ótica pelo que entendiam ser o correto, como o contemporâneo do Mestre de Delft, Gerrit van Honthorst em seu A Alcoviteira. Nesse quadro, percebe-se que a figura em primeiro plano tem praticamente o mesmo tamanho da que está no segundo plano.

gerard_van_honthorst_the_procuress600A Alcoviteira – Gerrit van Honthorst

Outro indício fotográfico perceptível apontado no artigo do site Essential Vermeer, é um fenômeno óptico conhecido por círculo de confusão. Trata-se da tendência que pontos de luz têm de se tornar circulares por efeito de perda do ponto focal de imagens projetadas por lentes. O estudioso Charles Seymour apontou essa característica em muitas das pinturas do artista. A figura abaixo, compara um detalhe retratando o espaldar de uma cadeira da pintura Garota com Chapéu Vermelho e uma foto desfocada de uma garrafa de vinho. Esse fenômeno não é perceptível a olho nú, portanto é mais provável que essa fosse uma obsevação do que Vermeer via através da camera obscura e não uma característica de estilo.

pontilles_Detalhe de Garota com Chapéu Vermelho e uma foto desfocada com círculos de confusão

Ok. E daí?

Mesmo que se provasse irrefutavelmente que Vermeer utilizava a camera obscura, isso jamais reduziria a genialidade do mestre neerlandês. Isso é algo que penso desde a adolescência, quando comecei a estudar pintura. Embora não faça tanto tempo assim (ok, talvez faça um bom tempo), o acesso a softwares como Photoshop, ou até mesmo a um computador, era inexistente. O máximo que eu ouvia falar de técnicas para “desenhar por cima” era a mesa de luz ou os retro-projetores. Olhava para ambos com muito desdém, julgando isso um truque pra quem não sabia desenhar. Hoje há coisas muito mais “escandalosas” do que isso como os famigerados “filtros artísticos” do Photoshop ou o brush cloning do Corel Painter. Trocando em miúdos: ambos trasformam fotos em “pinturas”.

Vermeer, ao contrário de nós, não utilizava esse artifício para “agilizar seu workflow”. Ele levava em média seis meses para pintar um único quadro, e há um consenso que em toda a sua vida não deva ter pintado mais de 34 telas. Devia dinheiro a Deus e o mundo e viveu boa parte da vida mantido pela sogra. O equipamento era apenas um meio para tentar retratar mais fielmente, pois provavelmente já naquela época, acreditava em algo que sabemos até hoje: os olhos nos pregam peças o tempo todo.

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